Will Bank: a história do banco digital que chamou atenção e acabou sendo liquidado

Este artigo explica de forma clara e direta o que foi o Will Bank, como o banco digital cresceu rapidamente no Brasil e por que acabou sendo liquidado pelo Banco Central. O texto aborda a proposta da fintech, sua aquisição pelo Banco Master e os principais acontecimentos que levaram à interrupção das operações. Também são apresentados os impactos para os clientes, como a situação do dinheiro em conta, cartões e a atuação do FGC, além de reflexões importantes sobre os riscos das fintechs e as lições que esse caso deixa para quem usa bancos digitais.

Miguel da Rocha

1/23/20265 min ler

Will Bank: a história do banco digital que chamou atenção e acabou sendo liquidado

1. O que era o Will Bank?

O Will Bank começou como uma fintech brasileira focada em produtos financeiros digitais, como cartões de crédito, débito e conta digital. A empresa nasceu da evolução de um serviço chamado Meu Pag!, que já atuava no mercado de pagamentos e cartões, e recebeu o nome de Will Bank em 2020, ano em que passou a operar oficialmente como banco digital.

A promessa da fintech era simples: tornar serviços bancários mais acessíveis para quem tinha pouco ou nenhum relacionamento com bancos tradicionais, especialmente jovens, pequenos comerciantes e pessoas nas classes C e D de renda. Para isso, oferecia conta digital gratuita, cartões de crédito sem anuidade e transferências por Pix e TED sem tarifas.

De forma parecida com outros bancos digitais — como Nubank, Banco Inter ou C6 — a ideia era que tudo fosse feito pelo aplicativo, com abertura de conta rápida, poucos custos e tecnologia amigável.

2. O crescimento e a promessa de inclusão financeira

Ao longo dos anos, o Will Bank cresceu bastante em número de clientes. A fintech atraiu milhões de usuários interessados em soluções simples e sem taxas bancárias pesadas, sendo especialmente popular no Nordeste do Brasil — uma região onde muitos serviços bancários ainda não chegam com facilidade.

Em 2021, o banco recebeu um aporte de R$ 250 milhões liderado pelo fundo de private equity da XP e pela Atmos Capital, mostrando que havia interesse de investidores no potencial da fintech.

O modelo de negócios também envolvia parcerias, como com a bandeira Mastercard, o que significava que os cartões emitidos podiam ser usados no Brasil e no exterior.

Tudo isso pintava um cenário promissor: um banco digital flexível, voltado para inclusão financeira e com um crescimento rápido.

3. A aquisição pelo Banco Master

A história começou a ficar mais complexa em fevereiro de 2024, quando o controlling stake (controle) do Will Bank foi comprado pelo Banco Master, grupo financeiro controlado por Daniel Vorcaro.

O Banco Master tinha uma abordagem diferente: além de banco, estava envolvido em um conjunto de atividades financeiras intensivas, incluindo emissão de investimentos de renda fixa com suposta garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Isso acabou chamando atenção dos reguladores.

Sob o guarda-chuva do Master, o Will Bank passou a integrar um ecossistema financeiro maior, com a expectativa de distribuir todo tipo de produto — de cartões a crédito, seguros e serviços bancários adicionais.

Em sua fase com o Master, o banco digital chegou a operar com base de mais de 9 milhões de clientes e ativos que ultrapassavam os bilhões.

4. O início dos problemas: liquidação do Banco Master

No final de 2025, a história tomou um rumo inesperado. O Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, por conta de problemas graves de liquidez, distorções financeiras e suspeitas de irregularidades na gestão de ativos.

A liquidação de um banco é um processo pelo qual o regulador decide que a instituição não pode continuar operando de forma sustentável. Isso acontece quando há risco de que a continuidade das operações cause mais danos aos clientes ou ao sistema financeiro como um todo.

Quando isso aconteceu com o Master, o Will Bank não foi liquidado imediatamente, porque o regulador acreditou que havia chance de vendê-lo a outra empresa e manter os serviços funcionando. Por isso, o banco digital entrou no chamado Regime Especial de Administração Temporária (RAET), em que o Banco Central assume a gestão para tentar preservar o negócio enquanto busca comprador.

5. A decisão final: liquidação do Will Bank

Mesmo com o RAET e tentativas de negociação no mercado, a venda não ocorreu. Como resultado, em 21 de janeiro de 2026, o Banco Central decidiu decretar a liquidação extrajudicial do Will Bank.

Essa decisão também levou à suspensão dos serviços: o aplicativo deixou de funcionar, transações foram interrompidas e cartões emitidos foram cancelados pela Mastercard após o banco descumprir obrigações de pagamentos no arranjo da bandeira.

A liquidação significa que o banco digital deixou oficialmente de operar como instituição financeira. Isso afeta diretamente correntistas, titulares de cartões, investidores e quem tinha saldo ou produtos contratados com a fintech.

6. E o que acontece com o dinheiro dos clientes?

Quando um banco é liquidado, o destino dos recursos de clientes e investidores segue regras específicas:

  • No caso do Will Bank, houve perguntas importantes sobre quem garante o dinheiro dos clientes. Em modelos tradicionais, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cobre depósitos até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ se o cliente tiver conta e investimentos elegíveis ao FGC.

  • Um detalhe importante é que algumas fintechs tratam as contas como contas de pagamento, não como contas correntes bancárias tradicionais. Isso pode afetar a cobertura do FGC, porque as regras mudam dependendo da licença e do tipo de conta. Comentários recentes nas redes sociais dizem que isso gerou confusão entre clientes sobre cobertura e ressarcimento.

  • Clientes com saldo em conta ou produtos financeiros poderão ser ressarcidos de acordo com a legislação vigente, com prioridade para valores cobertos pelo FGC, e o liquidante (nomeado pelo Banco Central) é responsável por administrar os ativos e passivos para pagar credores.

Ou seja: muita coisa ainda depende de regulador, liquidante e prazos legais — e é algo que os usuários ainda estão acompanhando de perto.

7. Lições da queda do Will Bank

O caso do Will Bank serve como um exemplo importante sobre as fintechs e os riscos do mercado financeiro, especialmente em um contexto de crescimento rápido.

Algumas lições que podemos tirar:

  • Modelos de crescimento acelerado precisam de base financeira sólida: conquistar milhões de clientes é ótimo, mas manter capital adequado é essencial para sobreviver a crises. Integração com grupos maiores pode ser um risco: quando o banco-dono enfrenta problemas, isso pode arrastar a fintech junto — como aconteceu com o Master e o Will Bank.

  • Cobertura do FGC e estrutura legal importa: saber se sua conta está coberta pelo FGC ou se é uma conta de pagamento pode fazer grande diferença para seus recursos em situações extremas.

  • Reguladores estão atentos, e a intervenção do Banco Central mostra que o sistema financeiro brasileiro tem mecanismos para proteger clientes, mesmo em casos de falência ou insolvência de instituições.

8. Conclusão

O Will Bank começou com uma ideia típica de muitas fintechs: inovar e democratizar serviços bancários no Brasil. Porém, desafios de gestão financeira e a conexão com um banco maior em dificuldades acabaram levando à sua liquidação extrajudicial em janeiro de 2026.

A história mostra tanto o potencial das fintechs quanto os riscos envolvidos nesse setor rápido e competitivo. Para clientes e investidores, é um lembrete claro de que até empresas de tecnologia financeira dependem de bases financeiras fortes e regulamentação estável.